Prática milenar ainda é alvo de preconceito, sendo comumente associada à promiscuidade, mas pode ser uma ferramenta de autoconhecimento
Ainda muito associada à promiscuidade ou a grupos “tilelês”, como são chamados pejorativamente pessoas adeptas de práticas e comportamentos “alternativos”, o tantra ou tantrismo é defendido por seus adeptos como uma possibilidade terapêutica que contribui para o autoconhecimento e que pode auxiliar no tratamento de disfunções variadas – incluindo distúrbios sexuais de raiz emocional.
Esse preconceito, que tem como efeito afastar pessoas da prática, persiste, em parte, graças ao tabu que segue atravancando conversas, por exemplo, sobre o sexo. É o que sustenta a terapeuta sexual psicossomática Tami Bhavani. “Muitos não estão preparados para o assunto “sexualidade consciente”, que é um dos pilares do tantra e que foi mais difundido aqui no Brasil através do neotantra (variação moderna ocidental do tantra muitas vezes associada a novos movimentos religiosos)”, observa.
A especialista acredita que, para romper com esse juízo precoce sobre a prática, “será preciso, primeiro, quebrar alguns padrões e crenças limitantes quanto ao prazer e ao sexo”, diz. Em seguida, e principalmente, “é importante que as pessoas interessadas procurem conhecer como realmente se dá o processo terapêutico tântrico”, comenta, alertando que há grande oferta de serviços que, apesar de divulgados como uma modalidade do tantra, não se utilizam de técnicas realmente condizentes com o método.
“Existem profissionais que recorrem, por exemplo, à hipnose para induzir a pessoa, sobretudo mulheres, ao orgasmo. Já vi esse tipo de prática ser associado ao tantra, mas não acredito que se trate de uma técnica tântrica, afinal, para nós, é fundamental que a pessoa experimente essas sensações estando em pleno estado de consciência”, avalia.
Possibilidades
Tami Bhavani detalha que o tantrismo é uma alternativa terapêutica que tem origem milenar, que teria sido criada pelos drávidas, povo que viveu na região norte da Índia. “Muitos acreditam que o tantra se limita apenas a uma massagem ou ao sexo tântrico, mas a técnica vai para muito além, possibilitando que a gente alcance um estado mais ampliado de consciência”, pontua.
A especialista garante que, associada a abordagens psicoterapêuticas, o método pode auxiliar pessoas que estão tratando disfunções sexuais. “A grande maioria dos que sofrem de algum tipo de problema em relação ao sexo estão enfrentando questões somáticas. Nesse caso, em vez de se tratar de um distúrbio fisiológico, a verdade é que o sujeito vai somatizando uma série de fatores, como ansiedade, crenças limitantes e traumas, de forma que o evento que motiva a queixa é muito mais um sintoma do que o problema em si”, salienta.
Além de ser útil para pacientes com disfunções sexuais, o tantra também abre a possibilidade da ampliação do orgasmo, sendo útil para quaisquer pessoas que queiram investigar explorar possibilidades de prazer sensorial. “Costumo brincar que as pessoas estão se acostumando com uma sensação de prazer apenas medíocre, que se resume a uma potente, mas pequena explosão sensorial vinculada quase exclusivamente ao genital. Muitos até acham que ejaculação e orgasmo são a mesma coisa, embora seja possível ter orgasmos sem ejacular e ejacular sem ter orgasmo”, sublinha Tami, garantindo ser possível expandir significativamente o período em êxtase orgástico.
Som, respiração e movimento
“As técnicas tântricas usadas no meu trabalho são o som, a respiração e o movimento. Por meio desses elementos, conduzo as pessoas sob minha orientação a um estado de consciência corporal e energética para que, então, seja possível dissolver as camadas transparentes que impedem o nosso corpo de sentir prazer”, detalha a terapeuta Tami Bhavani.
Ela assegura ser possível chegar ao orgasmo sem haver a estimulação genital ou sem que sequer seja necessário o toque físico. “Podemos, por meio de exercícios de escuta, ritmo respiratório e movimento, conduzir a energia presente em nosso corpo a esse estado orgástico”, diz, ponderando que esse fenômeno não costuma ocorrer já na primeira sessão terapêutica. “Isso só vai acontecer à medida que houver o aprendizado acerca de nossa própria potencialidade”, adverte.
Por: Alex Bessas
Fonte: Jornal O Tempo
